O Bolsa Família decide a eleição? veja dados em planilha Excel

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O Bolsa Família decide a eleição? A pergunta voltou com força depois do 1º turno das Eleições 2026. Nos municípios onde os beneficiários do programa representam pelo menos metade da população, Lula teve 68,7% dos votos válidos e Flávio Bolsonaro, 27,3%. Parece uma diferença enorme. Mas será que esses números permitem a conclusão que muita gente está tirando deles?

Para responder, eu coloquei os dados do Bolsa Família e da votação presidencial numa planilha de Excel. Ela é gratuita, e o botão para baixar está no final deste post.

Resumo rápido

  • Nos municípios de alta dependência do Bolsa Família (beneficiários ≥ 50% da população), Lula teve 68,7%, Flávio Bolsonaro 27,3% e os demais candidatos cerca de 4%.
  • Nos municípios de baixa dependência (beneficiários < 25% da população), o resultado se inverte: Flávio teve 53,9%, Lula 37,0% e os demais cerca de 9,1%.
  • Os grupos têm pesos muito diferentes: alta dependência = 14,4% dos votos válidos; média = 26,5%; baixa = 59,1%.
  • Os dados são agregados por município. Eles não mostram em quem cada beneficiário votou, e associação não prova causa.

Como os municípios foram classificados

O levantamento publicado pelo UOL separou as cidades brasileiras pelo peso do Bolsa Família na população local, ou seja, pela razão entre o número de beneficiários e o número de habitantes:

CategoriaBeneficiários ÷ populaçãoPeso nos votos válidos
Alta dependência50% ou mais14,4%
Média dependênciade 25% a menos de 50%26,5%
Baixa dependênciamenos de 25%59,1%

O peso do grupo intermediário é calculado por diferença: 100% − 14,4% − 59,1% = 26,5%.

Os dois extremos: o resultado se inverte

Grupo de municípiosLulaFlávio BolsonaroOutros
Alta dependência (≥ 50%)68,7%27,3%4,0%
Baixa dependência (< 25%)37,0%53,9%9,1%

Olhando só para essa tabela, alguém poderia concluir: “então o Bolsa Família determina o voto”. Só que essa conclusão é muito maior do que os dados permitem. Existem pelo menos três motivos para isso.

1. Não basta olhar o percentual: o tamanho do grupo importa

Os municípios de alta dependência representaram apenas 14,4% dos votos válidos. Os de baixa dependência representaram 59,1%, mais que quatro vezes mais.

Essa é uma regra básica de análise de dados: não basta saber onde um candidato tem a maior vantagem; é preciso saber quanto aquele grupo pesa no total. Uma vantagem enorme dentro de um grupo pequeno pode representar menos votos do que uma vantagem menor dentro de um grupo muito maior.

2. A comparação entre 2022 e 2026 envolve candidatos diferentes

Nos municípios de alta dependência, a votação mudou assim entre as duas eleições:

Indicador20222026Variação
Lula71,5%68,7%−2,8 p.p.
Jair Bolsonaro (2022) / Flávio Bolsonaro (2026)23,5%27,3%+3,8 p.p.
Outros candidatos5,0%4,0%−1,0 p.p.

Mas cuidado: estamos comparando eleições diferentes e, no caso de Bolsonaro, candidatos diferentes. A planilha descreve o comportamento agregado daquele grupo de municípios. Ela não consegue dizer por que cada eleitor mudou, nem se mudou. Por isso não faz sentido dizer, a partir desses números, que votos “migraram” ou foram “transferidos”.

3. Dado do município não é voto do beneficiário

Este é o ponto mais importante. Imagine um município com 100 mil habitantes, dos quais 60 mil recebem o Bolsa Família. Na planilha, o cálculo é:

=60000/100000 → 60%

Pela metodologia do levantamento, essa cidade entra na categoria de alta dependência. A classificação automática usa a função SE:

=SE(E7>=50%;"Alta";SE(E7>=25%;"Média";"Baixa"))

Agora imagine que Lula tenha recebido 68% dos votos nessa cidade. Isso não significa que 68% dos beneficiários votaram em Lula, porque:

  • o resultado eleitoral é do município inteiro, ou seja, beneficiários e não beneficiários;
  • o voto é secreto, e não existe dado oficial de quem votou em quem;
  • a tabela cruza duas características de um território, não de pessoas.

Em estatística, tirar conclusões sobre indivíduos a partir de dados agregados é um erro conhecido como falácia ecológica. Em resumo:

  • Município ≠ beneficiário
  • Dado agregado ≠ voto individual
  • Associação ≠ causalidade

Correlação não é causalidade

Uma planilha consegue mostrar onde duas coisas aparecem juntas. Ela não consegue, sozinha, provar que uma causou a outra. O Bolsa Família pode fazer parte do contexto eleitoral dessas cidades, mas outras variáveis também podem estar presentes, como:

  • renda;
  • região;
  • escolaridade;
  • urbanização;
  • emprego;
  • religião;
  • histórico político local.

Os dados disponíveis não apontam nenhuma dessas variáveis, nem o próprio Bolsa Família, como causa do resultado.

A pergunta certa

A pergunta “beneficiário do Bolsa Família vota em quem?” não pode ser respondida com esses dados.

Uma pergunta melhor seria: “como a votação muda entre municípios com diferentes níveis de presença do Bolsa Família?” Essa a planilha consegue responder. E essa é a diferença entre usar dados e apenas procurar números que confirmem aquilo que a gente já queria acreditar.

O que tem dentro da planilha

  • PAINEL_VIDEO: a classificação dos municípios, os dois extremos, o peso de cada grupo, a evolução de 2022 para 2026 e um exemplo de classificação com fórmulas.
  • EVOLUCAO: os recortes de alta e baixa dependência em 2022 e 2026, com notas de metodologia.
  • MUNICIPIOS_MODELO: um modelo para você preencher com dados de qualquer cidade. O % de dependência e a classe (Alta, Média ou Baixa) são calculados automaticamente com SEERRO e SE.
  • FONTES: todos os links e a metodologia do levantamento.

É um ótimo material para aprender Excel com dados reais: porcentagem, fórmula SE aninhada, SEERRO, variação em pontos percentuais e leitura crítica de dados.

Fontes dos dados

Dados agregados por município. Não identificam o voto individual dos beneficiários. Este conteúdo é educativo, voltado à análise de dados; não defende nem ataca nenhum candidato e não faz previsão eleitoral.

Perguntas frequentes

O Bolsa Família decide a eleição?

Os dados mostram que a votação é diferente entre municípios com mais e menos beneficiários, mas não provam que o programa seja a causa dessa diferença. Também não mostram em quem os beneficiários votaram, já que o voto é secreto e os dados são agregados por município.

Como um município é classificado como de alta dependência?

Quando o número de beneficiários do Bolsa Família corresponde a 50% ou mais da população. Entre 25% e menos de 50% é média dependência; abaixo de 25%, baixa dependência.

Por que o peso de cada grupo importa?

Porque um grupo com poucos votos pode ter um percentual muito alto para um candidato e, ainda assim, somar menos votos que um grupo grande com vantagem menor. Os municípios de alta dependência representaram 14,4% dos votos válidos; os de baixa, 59,1%.

A planilha é gratuita?

Sim. Basta clicar no botão abaixo. Ela abre no Excel, no Google Planilhas e no LibreOffice.

📥 Baixe a planilha grátis

Faça o download da planilha completa, com os dados do levantamento, as fórmulas de classificação e o modelo para analisar qualquer município:

BAIXAR PLANILHA GRÁTIS (.xlsx)

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